Dentre as principais necessidades vitais do ser humano, existe uma que lhe é peculiar: a necessidade de expressão. Poderíamos até dizer que todos os atos humanos são frutos dessa profunda necessidade da alma.
O homem classifica-se como um ser social, basicamente, porque precisa fazer trocas com o outro, ver-se ou não no outro, avaliar o outro, como também ser avaliado por ele. Enfim, um ser precisa de outro ser para que tenha parâmetros, referências, mas, sobretudo, para dar e receber. A alma humana tem conteúdos que precisam ser expressos e acolhidos. Sem esse intercâmbio ninguém cresce, ninguém vive: seca-se, morre-se.
O pintor, ao trabalhar sua tela, é movido por esse desejo, e, assim, procura captar e eternizar uma imagem, uma cena, um rosto que, de alguma forma, constituíram-lhe um evento. Para isso, estuda e elege as várias cores e suas nuances, os melhores ângulos, o desenho perfeito, numa tentativa veemente de que sua obra reproduza fielmente a profundidade e beleza do objeto de seu encanto.
Assim é o texto. e, na sua gênese, segundo Bosi (p. 274), “enfrentam-se pulsões vitais profundas, correntes culturais (que nomeamos com os termos aproximativos de desejo e medo, princípio do prazer e princípio de morte) e correntes culturais não menos ativas que orientam os valores ideológicos, os padrões de gosto e os modelos de desempenho formal.”
As palavras são as cores, as nuances, que o escritor usará em sua tela – o texto. A grande dificuldade, entretanto, é que elas – as palavras – não são diáfanas; são densas e opacas. Carlos Drummond de Andrade, constatando também essa verdade, disse: “Contempla as palavras. / Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra.”
Não obstante o “expressar-se” seja um ultimato, há que se considerar o grande trabalho do escritor em reproduzir seu evento com tal fidelidade e arte, “que a forma, nos casos de êxito, será o claro enigma que o poeta Carlos Drummond de Andrade escolheu como nome justo para a sua palavra” (Bosi, p. 275).
Porque, afinal, “a idéia que não se transforma em palavra, é uma idéia inútil.” (Lord Chersterton)